Resumos ANPOF 2014

André Brayner de Farias (UCS e PUCRS)

• Hospitalidade e cultura
Resumo: A relação entre hospitalidade e cultura envolve um conjunto variado de problemas e disciplinas. Por exemplo, uma perspectiva de abordagem poderia nos levar a perguntar sobre o modo como culturas diversas dão conta do problema da hospitalidade, ou ainda que práticas e ritos culturais significam variadamente o acolhimento. Tais perguntas produzem certamente estudos fundamentais. Mas será que tocam na questão fundamental? Seria a hospitalidade um fenômeno cultural? Naturalmente concordamos que sim, pois é a partir da visibilidade histórica que podemos falar; estamos condicionados pela cultura, que se expressa em todas as direções que tomamos e na língua que falamos, portanto, no modo como filosofamos; e também, sendo a cultura a nossa condição ontológica, nada haveria a significar fora dos horizontes delineados culturalmente. Mas a questão fundamental da hospitalidade certamente transcende a fenomenologia das práticas culturais, e não por isso deixamos de concordar que a hospitalidade é um fenômeno cultural. Porém, se consideramos a transcendência da hospitalidade com relação às culturas, se queremos significar o acolhimento do outro para além da horizontalidade histórica, aqui se impõe uma filosofia mais exigente da hospitalidade, que problematiza a condição ontológica da cultura. Essa filosofia encontramos em Levinas, para quem a moral não pertence à cultura. Aqui se trata de alertar para a ingenuidade de acreditar que basta respeitar as diferenças culturais, que basta aprender a tolerar o outro para realizar a justiça. Não basta, é preciso algo mais exigente, porque a questão da alteridade é exigente, e porque se trata de reconhecer tal exigência. A hospitalidade é incondicional, mas ela está condenada as suas formas culturais. Se aceitarmos, e isso nos convém, que a cultura é o espaço da liberdade, é possível sustentar, então, que a hospitalidade é o que move a cultura e a liberdade.

Benedito Eliseu Leite Cintra (Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação)

• Pensar como Emmanuel Levinas
Resumo: Pensar com Emmanuel Levinas é pensar como Emmanuel Levinas. Isso vale para todo filósofo, dependendo de seu estilo. A fala e a escrita do nosso pensador são originalmente marcadas pelo paradoxo. Numa indicação primeira, aponto “Totalidade e Infinito” e “Outramente que ser ou para além da essência”. Apontar aqui todos os seus apontamentos fenomenológicos (meta-fenomenológicos) é sem fim. “Fruição”, “trabalho” e “conhecimento” são existenciais descritos por oposições que lhes são internas em “aparentes contradições” (paradoxos). “Bíblia e Filosofia”, paradoxo presente no cristianismo, é diferente do paradoxo que Levinas a respeito aponta no judaísmo lituano (sefaradita). “O amor e a filiação” podem ser creditados a “bondade e generosidade”? “Transcendência e Inteligibilidade” considero uma palestra bastante enigmática de Levinas. Os debates que se seguiram à palestra mostram bem o paradoxal de seu pensamento. O paradoxo não é para ser resolvido, é para ser “pensado”. Será sempre necessária certa iniciação às reflexões do judeu-lituano-francês. Ele nos legou Filosofia a ser continuada e não apenas resumida, reinventada como a propôs.

Christopher James Eland (UFPE)

• A Justiça Violenta: Sobre Levinas e a vingança
Resumo: O objetivo deste trabalho é examinar o conceito de justiça e sua relação com a violência na obra de Emmanuel Levinas. A luz da publicação recente dos últimos seminários de Jacques Derrida sobre a pena de morte será feito um exame cuidadoso do ensaio levinasiano “La loi du Talion” (1963) publicado no livro Difficile Liberté: Essais sur le judaïsme. Nesse texto, Levinas apresentou sua interpretação da famosa passagem bíblica Levítico 24:17-22, em que considera que a justiça na tradição hebraica de “olho por olho, dente por dente” refere-se ao caráter desapaixonado da justiça e à necessidade de que a punição deva ser proporcional ao dano, ao invés do resultado da fúria e da vingança. Essa justiça desapaixonada é, então, “baseada na paz e na bondade” e é “a única forma possível de justiça”.
A partir da elaboração dessa dimensão desapaixonada de justiça e da rejeição categórica da vingança, o tema amplamente conhecido da justiça, presente em Totalidade e Infinito (escrito somente dois anos antes do “La loi du Talion”), poderá ser considerado na sua relação com o paradigma político da justiça punitiva e com a prática da pena de morte nos Estados Unidos, a fim de iluminar esses elementos políticos no mundo contemporâneo. Dentre as considerações principais que emergem desta análise, podemos destacar duas áreas distintas que são marcadas pela influência levinasiana: (1) a dimensão teórica da pena de morte, como a encontrada nos últimos trabalhos de Derrida e (2) a dimensão prática presente nos paradigmas emergentes da justiça restaurativa.

Diogo Villas Bôas Aguiar (UFPE)

• Indicativos de uma fenomenologia da liberdade em Levinas
Resumo: É em termos de um paradoxo que é possível tratar do problema da liberdade nos textos levinasianos. Se perguntarmos pela possibilidade da elaboração de um conceito de liberdade que esteja condicionado à heteronomia, iremos, evidentemente, nos comprometer com a necessidade de uma elucidação cuidadosa dos seus pressupostos. O questionamento que colocamos neste trabalho pode ser formulado nos seguintes termos: como, a partir do recurso fenomenológico, Levinas delineia o problema da liberdade e em que sentido a inversão entre ética e ontologia expõe a necessidade da explicitação da relação entre liberdade e heteronomia? Operando um corte que restringe o escopo de nossa abordagem apenas à Outramente que ser, a estratégia argumentativa que adotaremos inicialmente será o esforço de explicitação conceitual daquilo que podemos chamar de uma fenomenologia da liberdade. Partimos de uma acentuação do caráter fenomenológico do pensamento levinasiano, buscando definir, evidentemente, o que é fenomenologia na sua perspectiva. Daí ensaiaremos derivar o modo singular como a liberdade é considerada, pondo em relevo não só como esse conceito se opõe à tradição, mas o papel estrutural positivo que ele desempenha na argumentação levinasiana. Liberdade é a unidade da responsabilidade, ou seja, é o elemento possibilitador do exercício da própria responsabilidade: possibilidade de fazer aquilo que nenhum outro poderia.

Eneida Cardoso Braga (PUCRS)

• Para além do saber de si: sobre o sofrimento como fenômeno limite
Resumo: Este trabalho tem por objetivo abordar a questão do sofrimento como fenômeno limite entre a organização de uma estrutura de identidade e a imprecisa pluralidade da diferença. Para tanto, analisaremos algumas das principais ideias de Emmanuel Levinas, referentes a este tema, fazendo-as também dialogar com alguns conceitos psicanalíticos. Ressaltaremos o fato de que, em uma situação de sofrimento extremo, perdemos o domínio, o pertencimento e a posse; tudo o que anteriormente era percebido como certeza, fica em suspenso, a ser questionado, necessitando ser olhado por outras perspectivas. O narcisismo é, portanto, ameaçado, pois se evidencia a incompetência do eu como autossuficiente. Entretanto, por esta mesma condição de desorganização e falência narcísica, podemos experimentar o auxílio e o acolhimento do outro como oportunidade única de construção de condições de enfrentamento das adversidades. Fenômeno limite que também se constitui, portanto, em experiência de passividade, no sentido levinasiano, que nos lança à novidade e permite o desfrutar da proximidade e da entrega em favor da alteridade.

Estevan de Negreiros Ketzer (PUCRS)

• Emmanuel Levinas leitor de Paul Celan
Resumo: O presente trabalho trata sobre a construção poética do poema “Todnauberg”, de Paul Celan, que aborda o encontro entre Paul Celan e Martin Heidegger, em 1967. O contato entre o poeta e o filósofo se dá em circunstâncias silenciosas, tendo em vista a posição de Heidegger, favorável ao regime nazista e a condição de Celan, após os traumas decorrentes da Segunda Guerra. Em contrapelo, Levinas publica o artigo Paul Celan: do ser ao outro, em 1975, no qual aponta a linguagem de Paul Celan como um caminho à alteridade, abrindo um espaço que desarticula a ontologia de Martin Heidegger. Levinas tem em mira que a poesia de Paul Celan faz uma denúncia não apenas ao expor a relação entre palavra e o contato em um aperto de mãos, também demonstrando o desaparecimento da sensibilização do humano frente à miséria e a violência do próximo. Levinas mostra que os poemas celenianos tornam o mistério da palavra algo muito além complexo do que a imediatez do entendimento do código pela ontologia, habitando no poema um mistério dentro do mistério, infinito por estar sempre em derradeira zona de descoberta na alteridade. Nesse sentido a ontologia não está apenas afinada com a universalização conceitual dos aparatos das relações, mas também veicula a si mesma um pensamento de lastro biopolítico, como o filósofo denuncia em seu ensaio Algumas reflexões sobre a filosofia do Hitlerismo, de 1934.

Grégori Elias Laitano (PUCRS)

• Eco que precede a ressonância da voz – temporalidade, substituição e poesia: sobre a intriga enigmática da linguagem na obra de Emmanuel Levinas
Resumo: O presente ensaio está inserido no contexto mais amplo de nosso projeto de doutorado – A travessia do impossível: Levinas e a questão da linguagem – em desenvolvimento junto ao PPG em Filosofia da PUCRS. Deste, partilha da hipótese de que a obra levinasiana constitui-se, também, num esforço para reinventar a linguagem ao ponto de transformá-lo numa verdadeira reinvenção da filosofia desde a linguagem. Nossa nova incursão sobre a intriga enigmática da questão da linguagem na obra de Levinas dará ênfase especial para três dimensões da constelação levinasiana: a da temporalidade, sob a influência fundamental da obra de F. Rosenzweig, principalmente, como desenvolvida no segundo capítulo de Autrement no tocante ao envelhecimento; o tema da substituição, ao qual Levinas se debruça no quarto capítulo de Autrement, para onde converge, em certo sentido, toda a sua obra; e a concepção de poesia do autor, pós-Autrement, e, mais especificamente, como concebida no ensaio sobre a obra de Celan (Paul Celan: De l’être a l’autre). Nosso objetivo, na trilha dos rastros deixados pelo próprio Levinas, ao se valer do verso “eu sou tu, quando eu eu sou” do poema Elogio da distância de Celan, como epígrafe para o capítulo sobre a substituição em Autrement, é reconfigurar o enfoque sobre estas três dimensões do seu pensamento para explorar a questão da linguagem em sua obra sob o assombro da afirmação de Celan numa carta a H. Bender e que Levinas utiliza para abrir o seu texto sobre o poeta: “Eu não vejo diferença entre um aperto de mão e um poema”. Deste modo, abrir uma nova possibilidade de sentido onde a temporalidade se faz linguagem, pois reflexo de uma singularidade que se constitui na incondição de sua responsabilidade pelo outro, expressão de um modo outro de conceber a poesia numa intriga enigmática em que o não-lugar (utopia) da ética marca, de modo definitivo, de outro modo que ser, o locus da filosofia, como concebida desde sempre no Ocidente, é a questão maior deste trabalho.

Hegildo Holanda Gonçalves (Instituto Federal de Educação da Paraíba)

• A compreensão de ser na filosofia do hitlerismo segundo Levinas
Resumo: O presente trabalho constitui-se uma análise sobre a compreensão de Ser na Filosofia do Hitlerismo com base na concepção levinasiana. A problemática motivadora dessa investigação surgiu a partir das seguintes indagações: Como Levinas compreende a ideia de ser na filosofia do hitlerismo? Qual a conseqüência de uma filosofia cuja centralidade é o ser enquanto ser? Qual a conseqüência dessa filosofia na relação eu-outro? Para tanto, tomou-se como texto principal de análise “Algumas Reflexões sobre a Filosofia do Hitlerismo”, publicado em 1934, na Revista Esprit de E. Mounier. Levinas pretende mostrar, em um primeiro momento, a ligação existente entre a filosofia de Heidegger e a barbárie do hitlerismo. Nesse breve mas substancioso artigo, Levinas aplica o método fenomenológico contra o hitlerismo. O propósito levinasiano não é apresentar de forma minuciosa o movimento sócio-histórico, mas, abordá-lo indiretamente, a partir da filosofia que o sustenta: os sentimentos e a consciência coletiva e impessoal que comportam uma maneira fundamental de ser. Levinas deixa claro que o massacre levado a cabo pelo nacional-socialismo não está relacionado simplesmente com um desvio da razão humana ou com algum tipo de ressentimento eventual entre os seres humanos, mas, pelo contrário, é no seio de uma ontologia preocupada consigo mesma que encontramos a via de acesso para o horror e a violência que a história da humanidade tem atravessado. Assim, portanto, as reflexões apresentadas no texto pretendem aprofundar, teoricamente, elementos conceituais que possibilitem a compreensão de conceitos filosóficos basilares na Filosofia de Levinas. Através de análise bibliográfica, o presente texto traz à tona os desafios de uma filosofia que busque compreender o Outro para além da esfera do mesmo, do ser enquanto ser.

Jefferson Polidoro Dias (UFSM)

• A Construção da Subjetividade Ética e Política em Emmanuel Levinas
Resumo: A seguinte pesquisa é focada no entendimento da compreensão de subjetividade ética e política no pensamento de Emmanuel Levinas, focada principalmente na obra Outramente que Ser ou Mas Além da Essência. Sendo uma obra da maturidade de Emmanuel Levinas, é por muitos estudiosos deste filósofo considerada a sua grande contribuição filosófica, pois reuniria em si, todo pensamento do autor, ou pelo menos a sua visão mais amadurecida, após críticas e diálogos com seus pares. Após ter elaborado a crítica ao conceito de totalidade, demonstrando como ontologia escondia certo caráter de aprisionamento e controle de potencialidade, ou seja, todo pensamento filosófico sempre esteve ligado intimamente a certo pensamento politico. (de maneira que seria esta paz seria somente uma interrupção de lutas) bem como a ideia de ética de responsabilidade infinita pelo Outro (Totalidade e Infinito), Levinas explora um conteúdo tratado secundariamente nos seus primeiros escritos, mas que constitui enorme significação em seu pensamento, o Terceiro, ou seja, a questão da sociedade e do Estado. Dessa maneira, como alternativa Levinas desenvolve por meio da imaginação filosófica outro modo de pensar o Estado se desenvolve, na construção da subjetividade ética e política. Portanto, sendo assim pretendo focar esta pesquisa em Outramente que Ser, para assim compreender como por meio da imaginação política como é possível uma sociedade aberta e livre, baseada não na inflexibilidade, e sim nos princípios de solidariedade e abertura Infinito.

José André da Costa (Instituto Superior de Filosofia Berthier)

• Uma primeira aproximação da relação entre ética e política na filosofia de Emmanuel Levinas
Resumo: A meta principal desta investigação é fazer uma primeira aproximação da Filosofia de Levinas, no que se refere a relação entre ética e política a partir da categoria de Alteridade. Nas obras Entre Nós, Totalidade e Infinito, De Otro modo que ser o más allá de la Esencia aparecem a Ética, a Política e a Sociabilidade como temas articulados. Nestas obras o “face a face” é visto não em si mesmo. Se fosse visto por si só, não possibilitaria o pensar com o outro e também não seria possível pensar a edificação de uma sociedade humana. A Ética prescreve uma política e um direito. A proposta para esta realização é a filosofia da alteridade. A ética como filosofia primeira é o respeito à alteridade do outro. A responsabilidade pelo outro exige reposicionar a autonomia num novo patamar do pensamento. O Eu nunca existiu nem existirá numa independência absoluta de autonomia total. O sujeito é histórico e social nasce sempre numa relação plural. É a alteridade que possibilita a constituição do Eu. Se o Outro não existisse, o Eu perderia a condição de possibilidade de seu existir enquanto sujeito histórico. A ética é vista, então, como a dimensão capaz de reestruturar as relações humanas a partir do respeito alteridade de cada membro da relação. A ética moderna da autonomia fecha as portas para a alteridade. Na análise de Levinas um dos problemas levantado, a propósito da crítica ao sujeito autônomo da modernidade é que a alteridade se apresenta a ele como idêntica às outras coisas, não há diferenciação entre o Outro e os demais objetos. O Outro não é uma posição do Eu – mas uma interpelação permanente. Levinas alerta na obra Totalidade e Infinito, dizendo que o face a face, por si só, não possibilitaria o pensar a edificação da sociabilidade humana, é neste aspecto que a ética proposta por Levinas tem uma prescrição política.

José Pereira da Silva Filho (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO PARÁ)

• A Crítica de Levinas à objetivação do Outro na Fenomenologia de Heidegger: do Ser-Com a Alteridade.
Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar a crítica de Levinas à objetivação do Outro na fenomenologia de Heidegger onde o horizonte da existência para Heidegger impõe-nos a tarefa de nos preocuparmos com o estar-aí, com ser-no-mundo, que compreende todos os entes e a relação com os entes humanos, fundamentando-se num sistema ontológico-existencial de compreensibilidade dos existentes e da sua própria existência. Isso significa que a abertura da co-pre-sença dos outros, pertencentes ao ser-com, na compreensão do ser da pre-sença já subsiste uma compreensão dos outros porque seu ser é ser-com. É neste horizonte da compreensão da existência que nos é imposta a tarefa de termos que nos preocupar com o estar-aí-no-mundo dos outros. O estar-aí-no-mundo é estar-com-os-outros. O ser-no-mundo heideggeriano torna-se presença com o ser-com, sendo este, portanto, um ser-aí-com, uma vez que ao desdobrar um aí do Ser, a ele é dado também um com. Através do ser-com o Ser sai de si e se apodera do outro no sentido de procurar sempre a sua compreensão fenomenológica. Esse é um ponto que Levinas critica severamente a fenomenologia de Heidegger, pois para ele, o outro jamais pode ser tematizado sob pena de se cometer, em tal conhecimento temático, uma violência à alteridade do outro.

Jose Tadeu Batista de Souza (Universidade Catolica de Pernambuco)

• O dizer à alteridade de Deus na filosofia de Levinas
Resumo: Levinas foi caracterizado na contemporaneidade pelas mudanças provocadas na filosofia ocidental. Em sua obra é possível identificar rupturas com o pensamento que tem por objetivo o saber; com o modelo de sujeito, com o quadro conceitual da filosofia. Diante disso, perguntamos: Levinas também rompe com a concepção de Deus estabelecida na tradição da filosofia? Apesar de Deus não ser uma questão central nas suas investigações, ela irrompe na sua obra como tema específico de um curso em 1975, “Deus, a Morte e o Tempo”. Ele se preocupa com o discurso filosófico sobre Deus, em 1976, com “Deus e a Filosofia”. Em 1986, publica “De Deus que Vem a Ideia”. Formado na filosofia Ocidental, especialmente na fenomenologia, por um lado; e, por outro, conhecedor da tradição bíblica e do Talmude, buscou formular uma síntese entre as duas tradições superando o conflito entre fé e razão pela inspiração ética. Apresenta-se como um crítico das formas teóricas teológicas e filosóficas e das práticas religiosas que não expressam a altura de Deus e do Homem. Propomos apresentar o Dizer levinasiano, a palavra Deus, como uma expressão fora da onto-teo-logia do discurso filosófico tradicional. Levinas compartilha com Heidegger na necessidade de por fim a essa interpretação, mas se separou radicalmente dele pelo sentido da distância à onto-teo-logia. A marca definitiva do abandono de Heidegger pode ser explicitada na formulação da pergunta: “a falha da onto-teo-logia consistiu em tomar o ser por Deus ou antes em tomar Deus por ser?”. Quer uma, ou outra, não é uma alternativa viável para Levinas. O que a questão de Levinas coloca em tela é a noção que move o pensar, o ser, seja ele verbo ou substantivo. Ele quer saber se o verbo ser e o substantivo são “fontes últimas de sentido”. A Idéia do Infinito é apresentada como uma possibilidade de pensar Deus sem a contaminação ontológica, mas como diacronia des-interessada e fora da adequação noético-noemática da consciência intencional.

Leonardo Meirelles Ribeiro (UFMG)

• Ética e justiça e raízes do judaísmo em E. Lévinas
Resumo: O presente trabalho busca apresentar e analisar ainda que muito rapidamente a constituição das noções de ética e justiça em emmanuel levinas, tendo como base certas raízes do judaísmo. Em outras palavras, buscamos nesta apresentação responder a pergunta de como Emmanuel Lévinas resolve, através de noções-chave do judaísmo, e mais particularmente do método interpretativo do Talmude, o conflito que se estabelece nos capítulos finais de “Autrement qu´être ou au-delà de l´essence” quando o autor delimita de maneira mais clara o conceito de justiça que parece colocar ali em risco a noção da ética da generosidade infinita do eu para o outro. Com a entrada do terceiro, surge a pergunta de como é possível manter a ética se também é necessária a justiça que precisa considerar o outro do outro. Procuramos investigar no judaísmo uma resposta a tal desafio, seja o de possibilitar ambas noções, e desenvolvemos nossas considerações a partir da noção de uma lógica da ambiguidade, tomando como base o pensamento acerca de tal problema, desenvolvido por Jacques Rolland.

Luciano Costa Santos (Universidade do Estado da Bahia)

• Dessacralização e desencantamento
Resumo: No comentário talmúdico “Dessacralização e desencantamento”, da obra Du Sacré au Saint, Emmanuel Levinas traça uma nítida demarcação fenomenológica entre os âmbitos do sagrado e do santo, respectivamente concebidos como totalidade divina intramundana e separação – ou ileidade – do Deus absolutamente Outro. Mais do que distinção, trata-se, aqui, de positiva antinomia, pois no horizonte do sagrado apagam-se as fronteiras entre o eu (absorvido no divino), Deus (confundido com o mundo) e o Outro (encoberto pela máscara divina do mundo), obstruindo-se a possibilidade de sua mútua e fecunda relação. Em suma, no horizonte impessoal do sagrado esfumar-se-ia a epifania do rosto de outrem – chamado à justiça e à responsabilidade – como mandamento ético do Deus “santo” para sempre passado. Com base nessa antinomia entre sagrado e santo, o texto avança algumas provocações colaterais contundentes que, no contexto contemporâneo, no qual saltam a primeiro plano os paradigmas da deep ecology e da interculturalidade, merecem especial atenção, destacando-se, dentre outras, a tese de que a Natureza “dessacralizada” e “desencantada” por si mesma não imporia qualquer interdito à ilimitada ação da técnica; e a de que o mandamento ético inscrito no rosto de outrem – único “sagrado” digno desse nome – desautorizaria tradições culturais que celebram a pertença à terra e a sacralidade do mundo.

Marcelo Fabri (Universidade Federal de Santa Maria)

• O valor da civilização segundo Levinas
Resumo: A obra de Levinas, por sua própria complexidade, é atravessada por boa quantidade de conceitos esperando por explicitação. A publicação recente de textos inéditos do filósofo facilita esta tarefa. Um dos conceitos que clama por explicitação é, a nosso ver, o de civilização. Nos Carnets de Captivité (especialmente nas Notas Filosóficas Diversas), o referido conceito vem pensado a partir da categoria de simultaneidade. Na verdade, trata-se, para dizer com Bergson, de uma espacialização da sucessão temporal que, no caso de Levinas, se dá como organização do mundo pela narrativa, ou pelo poder de fabular. Nossa exposição tem como objetivo mostrar essa passagem do sucessivo ao simultâneo recorrendo, para tanto, ao conceito de palavra. No pensamento de Levinas, a civilização surge como um valor fundamental posto pela palavra. O mundo será habitável não porque nos enraizamos nele, mas sim porque é instituído pela relação inter-humana. No espaço da civilização surgem a decência do humano e a pessoa, como sujeito social. Mas surgem também o mascaramento e a dissimulação, tormentos da palavra. Assim, tomar a civilização como valor é agir em nome de um futuro possível, mas, por isso mesmo, sempre incerto. A fragilidade é o emblema mesmo da simultaneidade da civilização. Nunca definitivamente arruinada, e sempre na iminência de dissolver-se, a civilização é o valor a ser constantemente recriado e reinstituído. O humano talvez seja isto: valorar e agir em nome da civilização, esforço reiterado para criar e recriar esse “frágil espaço da não-violência”, onde podemos nos recolher e habitar, mas, sobretudo, espaço em que a alteridade pode ser acolhida.

Nilo Ribeiro Júnior (Faculdade Jesuita de Filosofia e Teologia)

• Sabedoria da carne em Levinas. Um diálogo com Merleau-Ponty e Michel Henry
Resumo: O trabalho centra-se em torno da problemática do corpo e da carne no pensamento de Lévinas. Procura-se indagar sobre a maneira como Lévinas reposiciona a questão da encarnação no horizonte de seu pensamento tendo presente a “Filosofia do Hitlerismo” e os desafios postos para a humanidade do ser humano e para própria filosofia depois do Holocausto. Nessa perspectiva, trata-se de se tecer uma filosofia da carne que, em certo sentido, se inscreva numa perspectiva (meta)fenomenológica e pós-ontológica.
No primeiro momento busca-se apresentar o pensamento de Lévinas no movimento de aproximação/ruptura com relação à doutrina do corpo e da carne dos mestres da fenomenologia Husserl e Heidegger. Em seguida, visa-se mostrar como o pensamento do filósofo alemão Franz Rosenzweig, foi determinante para o pensamento encarnado de Lévinas e de como esse se tece em função da reabilitação da temporalidade do tempo do Rosto do outro e da trama da relação sem relação que se estabelece entre o Mesmo e Outrem. Isso conduz Lévinas a “outro modo de pensar” a encarnação para além do ser. Inaugura-se um novo caminho filosófico da e para a carnalidade que se nucleia em torno do Outro-no-Mesmo como Bem para além do Ser.
Em seguida, procurar-se-á situar o pensamento encarnado de Lévinas frente às questões que advém do contato com a “ontologia da carnalidade” de Merleau-Ponty e com a “ontologia da vida” de Michel Henry. Nesse caso, a pesquisa indagará se a Sabedoria da Encarnação de Lévinas, cuja pretensão é a de se tecer “de outro modo que a Essência” poderia, de fato, estruturar-se em torno de um pensamento pós-ontológico ou urge deixar-se interpelar pela novidade do pensamento encarnado de seus contemporâneos.

Ozanan Vicente Carrara (Universidade Federal Fluminense)

• Aportes para pensar a democracia a partir de Levinas e Jonas
Resumo: Proponho-me, no presente trabalho, buscar os elementos que permitiriam pensar a democracia contemporânea a partir de Emmanuel Levinas e de Hans Jonas. Algumas indicações nesta direção se deixam ver nos textos de Levinas como o direito à palavra. Ainda há espaço para a liberdade da palavra na vida pública? As instituições sociais e políticas contemporâneas parecem se dar o direito de confiscar o discurso, o direito à palavra e ao dissenso. Num mundo marcado pelo domínio da economia e do mercado, o Outro, com suas exigências éticas, interrompe a política, denunciando o esquecimento do outro. Se examinarmos o Contratualismo moderno, constatamos que ele se acha construído em cima de um eu natural egoísta, individualista e autossuficiente. Levinas não poupa críticas ao individualismo do ser, rejeitando fortemente uma lógica do Estado fundada nele. Também a justiça moderna é a justiça contratual que se limita a procedimentos técnicos. Para Levinas, a alteridade funda um novo modo de ser pessoa, de pensar a sociedade e a cultura bem como uma nova forma de pensar a justiça. Um dos conceitos centrais de Levinas que pode nos ajudar a responder a essas questões é o de responsabilidade. Como pensar então a sociedade democrática a partir da responsabilidade? Se tomarmos ainda os Direitos Humanos, eles são direitos do outro que é o sujeito de direito. Levinas critica ainda o totalitarismo político que não se separa do totalitarismo ontológico. Da parte de Jonas, proponho-me investigar o vínculo entre democracia e ecologia. Apesar das críticas frequentes de que sua filosofia política tende a um poder forte e centralizado, qual seria a contribuição de Jonas para o debate democrático? Alguns desses principais elementos apontam para uma visão peculiar de democracia a partir dos insights desses dois autores.

Paulo Sérgio de Jesus Costa (Universidade Federal de Santa Maria)

• Sobre um poema russo de Emmanuel Levinas
Resumo: Um poema dos escritos russos de juventude de Levinas, recentemente publicado nas Oeuvres complètes, Tome 3: Eros, littérature et philosophie, é particularmente significativo para a discussão acerca da posição do pensador franco-lituano no âmbito da tradição fenomenológica.
Trata-se de explicitar como o filósofo já em sua fase juvenil trabalha com a tese da ruptura da consciência, que na fenomenologia fora associada ao cogito cartesiano. Em outras palavras, a presente hipótese busca apresentar uma interpretação do poema “Construir” (Stroit´) como exercício que antecipa a futura “crise” da intencionalidade husserliana, sobretudo, na sua segunda obra mais importante Outramente que Ser. É interessante observar que a tradição dos “avant-gardistes” Blok, Maiakovski etc., assim como do simbolismo russo inspiram o modo como o jovem Levinas poeticamente questiona o papel da centralidade da consciência do “eu penso” husserliano-cartesiano. Ler este poema de juventude, a partir dos textos posteriores que consolidam o pensamento levinasiano como subjetividade responsiva, conduz à surpresa peculiar de um novo canto que desinstala o “eu” da soberania de si. Isso significa ao mesmo tempo a realização de um exercício de re-criação da linguagem levinasiana, no sentido de uma poética da criação ética. O poema de Levinas, tão marcado por ritmos, métrica e versificação que invocam motivos semânticos obscuros e melancólicos da noite e do crepúsculo, anuncia a potência ética da criação via a fissura do sujeito.

Philippe Xavier Renault (Universidade Federal do Para)

• A Relação social no pensamento de Emmanuel Levinas
Resumo: Emmanuel Levinas, o filósofo da alteridade, da unicidade absoluta do sujeito separado, mas também o crítico da totalidade, tem paradoxalmente todos os termos de uma filosofia social inovadora, embora a mesma não seja objeto de qualquer sistematização. Essa ausência não é, entretanto, uma deficiência, mas sim o resultado da própria crítica da totalidade. Neste trabalho descreveremos o esboço deste pensamento complexo da socialidade que se constrói a partir da recepção do rosto do outro.
O face a face da relação intersubjetiva, tal qual descreve Levinas, principalmente a partir de Totalité et Infini, induz a uma abordagem renovada do vinculo social, irredutível as formas totalizantes da vida social e política. Em Autrement qu’être, Levinas descreve a subjetividade em termos de responsabilidade para com o outro. Eleito pelo Outro, o sujeito – único e insubstituível – se vê Responsável não só para com o Outro, mas também para com todos os outros que vem na face do Outro. Responsável que esta multiplicidade chama para assumir responsabilidades e, portanto, a vida social.
A natureza de tal conceito, invalidaria todo efeito de estrutura, necessário à organização prática da vida social. Acontece exatamente o oposto. Enfatizando a chamada de cada um para a responsabilidade com o outro e com todos os outros até a substituição, Levinas renuncia oferecer modelos alternativos, de “substituição” – tanto morais quanto políticos ou sociais – capazes de “fazer melhor”. Sua crítica drástica da totalidade não recusa , mas estabelece a possibilidade e a legitimidade das instituições, mostrando seus perigos e seu limite. Ele se faz, dessa maneira, o herdeiro do fato social de Durkheim, proporcionando, contudo, uma interpretação diferente da participação do sujeito na vida social que avaliaremos a partir da não-reciprocidade da propria relação intersubjetiva.

Ricardo Timm de Souza (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)

• Levinas, a linguagem e a desconstrução da violência biopolítica
Resumo: É indubitável que o flagelo mais eloquente que se abate sobre a humanidade como um todo nos terríveis percalços sócio-ecológicos desse início de século XXI – a conseqüência lógica de séculos de incubação sociocultural e de décadas de crescente sofisticação tecnocrático-científica – é a violência biopolítica que, sob as mais diversas formas, reduz o singular a uma determinada quantidade, a um quantum meramente individual e intercambiável, alvo de todos os tipos de jogos reificantes que advêm com a possibilidade aparentemente irrestrita de transformação do mais profundo – ou do que resta de – “humano” em qualquer outra coisa, arquitetada pela hegemonia da razão ardilosa que, com suas cavilações, substitui continuamente a espessura do real por conceitos manobráveis em um processo inexorável de transformação de qualidade em quantidade. A idolatria capitalista global em seu estágio tardo-moderno reduz cada potencial sujeito humano a um feixe de desejos vagos, que se insinuam entre vestígios reconhecíveis de pulsões arcaicas e recombinações de metamorfoses construídas pela instilação frenética de pretensas necessidades que transformam o real, com todo o peso dessa palavra, em uma coisa manobrável, através de infinitos instrumentos de convencimento, dos mais sutis e delicados aos mais explícitos e grosseiros. O presente trabalho se propõe a elucidar algumas possibilidades de desconstrução dessas lógicas de constituição e legitimação da violência biopolítica a partir da relação entre a obra de Levinas e a linguagem.

Rubens Machado (Universidade Federal de Santa Maria)

• A noção de verdade na obra Totalidade e infinito de Emmanuel Levinas
Resumo: O objetivo do trabalho é apresentar a noção de verdade desenvolvida na obra Totalidade e infinito: ensaio sobre a exterioridade de Emmanuel Levinas. O ponto de partida da pesquisa é a proposição segundo a qual “a verdade supõe a justiça”.
Na expectativa de atingir o objetivo do nosso trabalho seguiremos os passos seguintes:
– no primeiro momento tentaremos recuperar a noção de verdade em Levinas e na obra já indicada a partir da sua concepção de justiça definida por ele como “acolhimento de frente no discurso”. Por acolhimento podemos entender uma atitude ética frente a Outrem, diferente da intencionalidade, que é uma atitude teórica; a relação frente a frente (face à face) é o evento, ainda empírico, que diz respeito ao encontro entre dois termos chamados por Levinas de Mesmo (Eu) e Outro. A relação frente a frente constitui o evento inaugural da filosofia de Levinas que ele chama ética.
– no segundo momento a partir da noção de justiça entendida como acolhimento e que nos remete ao frente a frente como evento ético possibilita desenvolver a ideia de que, na relação frente a frente o Mesmo (Eu), “mônada reflexiva” que a partir de si constitui a realidade que lhe é exterior encontra no “Rosto” (visage) de Outrem uma “resistência”, uma interrupção dos seus poderes. Tal interrupção se dá porque Outrem é uma exterioridade infinita que põe em causa os poderes do Mesmo. Nesse sentido, a verdade é uma modalidade do Outro e não do Mesmo. A presença de Outrem é condição da verdade porque é o Mestre- ensinamento. Nesse sentido a verdade é constituída na relação; é uma modalidade da relação frente a frente.

Sandro Cozza Sayao (Universidade Federal de Pernambuco)

Fenomenologia, ética e judaísmo: o sentido do humano em Emmanuel Levinas
Resumo: Descrevendo o psiquismo humano numa sempiterna gestação do Outro em si, como se os “nós” que tramam a subjetividade carregassem consigo o Infinito, o Outro no Mesmo, Levinas chega a uma radicalidade maior que a proposta pela intersubjetividade de Husserl. Reivindicando uma condição de sentido pré-original além da fenomenalidade da consciência intencional e para além do tempo da (re)presentação, deflagra uma espécie de voz do Outro na intimidade do sujeito, como uma apelação traumática que anima, elege e comanda a uma espécie de responsabilidade irrevogável, independente da aventura do saber e do poder, isso como uma encarnação inscrita (assigné) pelo sentido de responsabilidade como a própria intriga maternal. Aí, a significância mesma da significação, da proximidade que transe para o Outro sem subserviência a qualquer peripécia da representação, indica a subjetividade transida pelo que, segundo ele, seria a glória do infinito, que é a desigualdade do Mesmo e do Outro, a diferença, que é também a não indiferença do Mesmo a respeito do Outro que resulta na substituição. Nesse contexto de despossessão de si, saída de si, da clandestinidade de sua identificação e já signo feito ao Outro, o que se vê é um sentido de devoção que a muito é dito no discurso bíblico, neste caso, talmúdico profético. Substituição, despossessão de si, responsabilidade, desejo, eleição, entre outros, surgem como conceitos no que parece ser a projeção filosófica de todo um sentido ético já presente na tradição da ciência rabínica, no qual a presença da transcendência no mundo anima e assina o humano. Deste modo, a intensão aqui é a analisar os indícios dessa fonte inspiradora na obra de Levinas e o modo como essa é operada por ele no âmbito da fenomenologia. A intensão nessa discussão é abrir-se a elementos férteis à compreensão do autor e das teses que a partir dele se configuram.

Silvestre Grzibowski (Universidade Federal de Santa Maria)

• Fenomenologia da corporeidade: a questão da corporeidade em Emmanuel Levinas
Resumo: Emmanuel Levinas que era um fenomenólogo e que é atualmente conhecido mundialmente, sobretudo, pelo pensamento sobre a ética da responsabilidade também dedicou boa parte do seu pensamento sobre a corporeidade. Precisamente, a corporeidade é o escopo do nosso estudo. Para isso, sustentarei a tese neste estudo de que não só existe uma fenomenologia da corporeidade quando ele fala do Outro, mas que a ética levinasiana tem como ponto de partida na corporeidade do outro, na carne, por isso que o outro enquanto corpo jamais poderá ser reduzido a um tema.
Dividirei o trabalho em duas partes. No primeiro momento irei mostrar que para compreender o movimento e o significado da fenomenologia da corporeidade de Levinas ela se esclarece se nós a situarmos dentro das outras concepções fenomenológicas do corpo, de modo especial as que citamos acima (Husserl, Ponty, Henry). Com isso quero enfatizar que o movimento levinasiano pertence a uma discussão daquele momento e que o seu pensamento apresenta a sua originalidade. Porém, não irei discutir aqui, se Levinas está de acordo ou contrapõe a outras teorias, mas a questão a ser discutida é que Levinas seguindo o método fenomenológico leu a corporeidade a partir da fenomenologia e não de outra ciência. No segundo momento apresentarei sobre a exposição do outro, do outro encarnado. É a corporeidade que está exposta, a vulnerabilidade, é possível de ser afetada. Para Levinas a exposição do outro (corporeidade), encarnação do outro é o fenômeno primeiro para a constituição da ética.

Talins Pires de Souza (PUCRS)

• Arte violada: crítica a economia e desumanização
Resumo: Violência à arte se trata de tema para o projeto de mestrado. Por que violência à arte? Uma suposta subversão da arte a qualquer ordem talvez seja a causa de toda a violência a qual a mesma é acometida. Tendo o principio de não-identidade (adorniano), a arte seria o único libelo de liberdade humana na contemporaneidade. Esse ‘acinte’ não seria tolerado pela economia vigente a qual estamos submetidos e, provavelmente, seja esse o motivo do obsedante intuito de sumariamente torná-la moribunda. O sistema de dominação pressuposto é o do capitalismo-religioso (benjaminiano). Considerando a intenção da cultura capitalista religiosa em domesticar a arte, um exame crítico para apontar as bases e dispositivos (agambeniano) de dominação se torna urgente. Sujeita a esta dominação a arte recebe uma bula que vai além das prescrições herdadas da sociedade burguesa, sendo necessário educar para uma razão específica sobre arte, afirmando que a mesma é invenção, abstração de um gênio que determina à obra de arte a representação dessa abstração. Tal automatismo genial aniquila tudo o que é humano da arte, a inteligência e o sentimento. Em que implicaria ao ser humano a falta da relação entre ética e estética? Há tempos que o humano na figura do “outro” (levinasiano) aterroriza a própria humanidade com base em doutrinas da “imagem e semelhança”, ou seja, contra a inelutável existência e experiência da alteridade. Tendo em vista que quem tem ou pode perceber e manifestar essa relação é o humano, todo o empreendimento da economia vigente seria impedir o que é humano, inclusive a arte. Todo o esforço da administração capitalista religiosa é estabelecer um processo de adesão pela identificação com o seu sistema e, para tanto, é necessário uma razão instrumental incapaz de crítica. Enfim, é a partir deste referencial e das instigações que dele suscitam que se basearia a maneira humanizada para pensar o que seja a arte e o artista.

 

2 comentários em “Resumos ANPOF 2014

    1. Olá, Erick.

      Infelizmente, os textos não foram publicados ainda. Esperamos que em breve seja publicada uma coletânea. Por enquanto, o acesso só será possível se vc entrar em contato pessoalmente com o autor e pedir uma cópia do que foi apresentado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s